O TERCEIRO ASSASSINATO

Apesar do respeito que merece de mim o prefeito de Santo André, João Avamileno, chego à conclusão de que ele despirocou e está tecendo um novo capítulo do caso Celso Daniel, que poderia ser chamado de “O Terceiro Assassinato”.

Não é fácil admitir esse diagnóstico. Lutei para fugir dessa constatação. Pensei mil vezes, mas não tem jeito mesmo: ao se meter numa aventura por pressão de familiares e de alguns apoiadores sob encomenda, o prefeito de Santo André caiu numa armadilha fatal.

Que armadilha é essa, afinal?

A de que a biografia que construiu durante longos seis anos pós-morte do prefeito Celso Daniel, de quem era vice, está indo literalmente para o ralo. Ao deixar a condição de magistrado nas prévias do PT que escolherão o candidato do partido para as eleições do ano que vem e jogar-se de corpo e alma nas águas revoltas da candidatura do deputado estadual Vanderlei Siraque, João Avamileno deveria ter avaliado que a travessia não tem volta. Se ganhar o bicho pega, se correr o bicho come.

A Imprensa mais doutrinada às conveniências jamais se preocupará em exumar as repercussões do gesto de João Avamileno que, depois de anunciar apoio público a Vanderlei Siraque, dispensou o secretário de Governo Mário Maurici, marido da candidata Ivete Garcia e homem forte de Brasília em Santo André.

Preferirá esse tipo de mídia apenas relatar informações. Esse é um modelo típico de não-comprometimento e de preservação de relacionamentos à custa da sonegação de esclarecimentos. Filtram-se declarações para amenizar a crise partidária, o desarranjo da gestão da Prefeitura e o desassossego do restante do mandato de João Avamileno.

Não vamos detalhar baixarias das disputas petistas, porque fazem parte do cardápio da democracia alguns excessos. Entretanto, quando o prefeito está diretamente ligado às ações dissuasivas de votos em favor de Ivete Garcia, o que se tem é o estrebuchamento da hierarquia. O varejismo reduz a política à zona de meretrício.

João Avamileno perdeu o controle do secretariado, integralmente favorável à vice-prefeita. Depois das prévias terá trabalho redobrado para reparar o desastre do qual é o principal responsável. Ganhando ou perdendo seu candidato, dificilmente as louças se recomporão depois de quebradas, porque louças recompostas deixam sempre marcas de que já não são as mesmas de antes. Atirar algumas ao lixo da conveniência administrativa e de novos arranjos gerenciais parecerá a melhor solução, mas só agravará o ambiente de hostilidades.

O que mais pesa sobre a decisão de João Avamileno ao pronunciar apoio a Vanderlei Siraque é a quebra da confiança dos petistas com os quais convive no Paço Municipal. Em março deste ano, numa reunião de secretariado, com provas testemunhais, ele anunciou decisão de apoiar a vice-prefeita. Siraque era carta fora do baralho por conta de algumas operações corporais que abalaram segmentos petistas.

O que teria levado João Avamileno a mudar de opinião? Há piratas que não pretendem que as digitais programáticas do Partido dos Trabalhadores impressas pelo grupo de Celso Daniel sejam perpetuadas. Pretende-se promover um governo populista de esquerda, que navegará conforme as ondas de interesses de ocasião, com amplas possibilidades de acirrar ânimos ideológicos e partidários que estão na raiz da crise institucional do Grande ABC.

Até a queima de reputações que resistiram ao bombardeio adversário por conta da morte de Celso Daniel, e também do mensalão, integra a ladainha de bastidores para reverter votos consumados em favor de Ivete Garcia. Só não colocam Ronan Maria Pinto no alvo do requentamento de casos que a dupla Brandão-Pisaneschi utilizou à exaustão nas eleições de 2004 porque o empresário de ônibus está à frente do Diário do Grande ABC. Já Luizinho Carlos da Silva e Klinger Sousa não contam com compaixão alguma.

A derrota de Vanderlei Siraque quando os votos do primeiro turno das prévias foram apurados foi um golpe que o deputado estadual não assimilou, mas atingiu mais profundamente o prefeito João Avamileno. Venderam-lhe a certeza de que a disputa já estava liquidada. Daí a volúpia com que jogou fora o figurino de comedimento e tolerância para romper com o assessor imediato que tanto o protegeu dos percalços de um poder que lhe caiu no colo por conta de um infortúnio e que, mais tarde, arrebatou numa disputa dificílima.

Lamentavelmente, João Avamileno jogou às traças o histórico pessoal de conciliação, de negociação, de aproximação dos contrários. Acenaram-lhe futuro político de legislador estadual, de possível retorno ao Paço na sequência, e lá se formatou o plasma da contraface de João Avamileno boa-praça, um João Avamileno intolerante, exclusivista, rancoroso porque, sendo a regra do jogo democrático a liberdade de escolha, não perdoa quem o contrarie na decisão de optar por Ivete.

E, sempre com a assessoria arrogante de quem não admite o contraditório, observa parcialidade em quem tem a coragem e a independência para escrever que ele errou no começo, errou no meio e terá errado completamente e sempre nesse caso, seja qual for o resultado de domingo.

João Avamileno tinha tudo para ficar na história política de Santo André como o homem que conseguiu superar o maior trauma social de uma administração pública, ou seja, a perda de um estadista do tamanho de Celso Daniel. Infelizmente, quando essa biografia parecia cimentada, eis que apareceram umas prévias em sua trajetória e, tristemente, a nocauteá-lo como chefe de Governo e a derrubá-lo como liderança petista.

A paralisia e o divisionismo da administração pública de Santo André são uma obra acabadíssima da enrascada em que João Avamileno se meteu ao não respeitar os próprios limites.

O legado de Celso Daniel sustentado principalmente pela força coletiva do secretariado em risco significa, sem rodeios, espécie de terceiro assassinato do executivo público mais brilhante que o Grande ABC produziu ao longo da história — o segundo assassinato, como se sabe, foram as investigações dos promotores criminais que contaram com o tom de veracidade acrítica dos irmãos João Francisco e Bruno, que pegaram carona no prestígio e na canonização do prefeito assassinado.

Que se passa, afinal, com a transfiguração de João Avamileno? Por que aqueles que o rodeiam têm tanto poder de persuasão? De que João Avamileno tem medo, afinal? E se não tem medo de nada, por que tem utilizado de artimanhas protelatórias para tentar manter no cabresto alguém que ele imagina capaz de atrapalhar os planos de seu grupo?

 

FONTE: CAPITAL SOCIAL

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